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Etanol: entendendo o mercado e os preços

22/01/2010 – Marcos Sawaya Jank para o Espaço Aberto do estado de S. Paulo

A principal característica das commodities são as suas incontroláveis flutuações de preços. Salvo no caso do petróleo e derivados, que no Brasil são um monopólio com preços fixados pelo governo, todas as demais commodities vivem permanente volatilidade de preços.

Este é o caso do álcool combustível, o etanol, cujos preços flutuam livremente ao sabor das variações de oferta e demanda. É verdade que, no passado, o governo já controlou os preços do açúcar, do etanol e de várias outras commodities. Há, porém, amplo consenso de que a desregulamentação nos anos 1990 levou a ganhos de eficiência e forte redução de custos de produção, beneficiando toda a sociedade.

Acompanhando o rápido crescimento dos veículos flex desde 2003, que hoje já atinge quase 40% da frota total, o etanol superou a gasolina na preferência dos consumidores e tornou-se um notável exemplo para o mundo de substituição de petróleo e de combate ao aquecimento global. Nos três últimos anos, graças à expansão da oferta e aos baixos preços, somados ao reconhecido valor ambiental do produto, o consumo de etanol cresceu fantásticos 78%, ante apenas 3% da gasolina.

Acontece que no final da atual safra alguns fatores produziram uma alta do preço do produto, confirmando a regra da volatilidade. O primeiro fator, muito comentado, porém de baixo poder explicativo, é a alta do preço do açúcar no mercado mundial, causada por quebras de safra nos principais países produtores, dentre eles Brasil e Índia. De fato, as usinas têm alguma flexibilidade para optar pela produção de açúcar ou etanol, porém a “migração” é limitada pela inexistência de fábricas de açúcar na maior parte das novas unidades e pela falta de capacidade ociosa nas mais antigas.

O principal fator que explica a alta recente do etanol tem sido pouco comentado: a crise financeira global, que atingiu duramente o setor. No primeiro semestre de 2009, a falta de liquidez no mercado de crédito forçou boa parte das empresas a desovarem grandes volumes de etanol a preços fortemente deprimidos, abaixo dos custos de produção, para poderem se capitalizar. Isso fez o consumo explodir – quase 30% de aumento em relação ao mesmo período em 2008. Em seguida, as chuvas excessivas do segundo semestre fizeram as usinas ficar o dobro de dias paradas em relação ao usual, comprometendo a produção prevista e os estoques para a entressafra.

Pode-se dizer que o etanol constitui hoje um exemplo de funcionamento correto das forças de mercado, gerando ajustes de preços. O principal pilar de sustentação do sistema é justamente o carro flex, que permite ao consumidor a escolha do combustível em função de seus preços relativos e vantagens técnicas e ambientais. Nenhum país no mundo oferece essa possibilidade de escolha de forma tão ampla e benéfica para o consumidor. E, ao escolher, o consumidor força os ajustes de mercado. Portanto, a experiência brasileira é um sucesso tecnológico nacional, da competitividade da cana-de-açúcar à eficiência dos motores flex, que conta com um sistema de formação de preços livres que traz benefícios econômicos, sociais, ambientais e de saúde pública.

E pelo menos dois fatores de melhoria estão em andamento. O primeiro é a retomada do crédito para a formação de estoques reguladores (warrantagem), que não funcionou no ano passado por problemas nos balanços das empresas depois da crise de endividamento e falta de liquidez. O segundo foi a recente aprovação, pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), da entrada de novos agentes e a criação de empresas de comercialização no etanol, até então lamentavelmente proibidas pelas regras vigentes no mercado de combustíveis. A volatilidade de preços vai continuar a existir, até porque, ao contrário do petróleo, a produção de cana depende dos humores do clima. Ela pode, porém, diminuir com a presença dos novos agentes e mecanismos de financiamento, estocagem e comercialização.

Outra variável importante é o comércio exterior. O governo e a indústria estão engajados numa verdadeira cruzada para consolidar o etanol como uma commodity global, que poderá trazer investimentos, empregos, divisas e ganhos para o planeta na questão do clima. O problema é que o mercado de etanol é fortemente protegido no mundo. Os Estados Unidos já estão reconhecendo as vantagens do etanol de cana em relação a outras matérias-primas e a tarifa que incide sobre o produto importado está em debate no Congresso americano e poderá cair até o final deste ano.

Se queremos que o etanol se consolide como uma alternativa energética global, é fundamental que as proteções tarifárias e não-tarifárias sejam derrubadas, inclusive no Brasil, que mantém uma elevada tarifa de importação de 20%, altamente criticada no exterior. Alguns grupos americanos afirmam corretamente que é incoerente o Brasil pedir maior abertura comercial e, ao mesmo tempo, proteger o seu próprio mercado com uma alta tarifa de importação. O pleito do livre-comércio não funciona em mão única. Se somos os mais competitivos do mundo, por que não dar o bom exemplo que nos credencia a pleitear a abertura do mercado norte-americano, de longe o principal mercado consumidor da atualidade?

Em suma, nossos 35 anos de história do etanol tiveram grandes solavancos: da intervenção para o mercado livre, o desenvolvimento do carro a álcool, a volta do carro a gasolina, a inovação dos veículos flex. Hoje as motocicletas, as usinas de bioeletricidade e os bioplásticos. No futuro, os ônibus, os caminhões, os aviões, os hidrocarbonetos de cana e a alcoolquímica. Apesar dos solavancos, este ano causados pela crise financeira e pelo clima, é fundamental continuarmos aprimorando o funcionamento dos mercados e estimulando a mudança tecnológica, a competitividade e a sustentabilidade.

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